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27/01/2013

Ciberpolítica: o verdadeiro novo caminho?

“A democracia representativa já era, e temos de descobrir como vamos institucionalizar essa nova realidade.”

A surpreendente declaração, que reproduzi neste blog em agosto de 2009, é do senador José Sarney, um político que há décadas se mantém no poder justamente como beneficiário da velha e viciada maneira de fazer política.

Pois parece que os espanhóis estão encontrando uma forma de institucionalizar a nova realidade a que se refere Sarney.

Se a experiência for bem sucedida, estará provado que é possível nos livrarmos dos velhos políticos e da velha política que há séculos aí estão a atravancar nosso caminho.

Confira nesta reportagem do jornal O Globo:

Espanhóis se unem em legenda de atuação anônima pela internet

Grupo criou partido político que quer construir democraria sem intermediários, pela própria rede

Madri – Do outro lado da linha, uma pessoa sem nome, que trabalha em um grupo heterogêneo de 90 voluntários de 19 a 86 anos. Todos anônimos. Criaram um partido político, o Partido X (Partido do Futuro), sem sede física, que pretende construir uma democracia direta, sem intermediários, através da internet. Chegou com força e seu servidor entrou em pane, pois recebia 600 mensagens por segundo. No primeiro dia, atraiu 13 mil seguidores no Twitter, 7 mil no Facebook e 100 mil visitas no YouTube. Querem ganhar, dizem, tudo — referendos vinculantes, iniciativas legislativas populares etc —, com um wikigoverno, e colocar em xeque-mate todos os mandatários que conduzem a Espanha de costas para a sociedade.

— Existe uma crise que não foi criada pela cidadania. A sociedade está pagando por ela, e o que queremos é que os especuladores e políticos que a causaram paguem pelo que fizeram — conta, por telefone, a anônima porta-voz.

Suas metas imediatas são duas: soberania cidadã, para influenciar as ações do governo e a saída urgente da crise econômica, que assola o país com um índice de 26% de desemprego. Não são de esquerda, de direita, nem de centro, diz a porta-voz. Tampouco se definem como republicanos ou monarquistas, parlamentaristas ou presidencialistas.

— Não nos perguntamos sobre nossas ideologias. Este não é um espaço de discussão. É uma ferramenta de trabalho para a sociedade civil mudar o sistema político. Queremos fazer a máquina funcionar e não discutir constantemente sobre ela. A discussão deve existir, mas em outros âmbitos. Queremos ser o catalisador desta energia de mudança, que já existe, e ajudar para que tudo mude o mais rápido possível.

O Partido X começou a ser gerado há um ano e meio, em plena efervescência do Movimento 15-M, que surgiu com acampamentos, nas principais praças do país, e passeatas como mostra de indignação contra o atual sistema político-econômico. O 15-M continuou vivo em assembleias de bairros, tomando um papel ativo, por exemplo, contra os despejos e a atual lei hipotecária.

FUNDADORA APOSENTADA

Os indignados foram acolhidos pela sociedade espanhola — cerca de 70% os apoiavam —, mas despertaram críticas praticamente unânimes: abordavam uma infinidade de questões de maneira prolixa e difusa. O Partido X é o oposto: pretende enfrentar um problema de cada vez e só passará ao segundo, quando o primeiro for solucionado. E deixa claro: nasceu do 15-M, mas não é o partido do 15-M.

— O Movimento 15-M é um momento histórico na Espanha. Deve ser identificado como uma época. É como dizer Revolução Francesa ou Revolução Industrial. A ideia surgiu neste período histórico, mas não como extensão dele. Alguns de nós do Partido X participaram do 15-M desde o princípio, outros nunca foram sequer a uma manifestação. O 15-M não quer ser representado, não quer um partido politico. Quem disser que representa o 15-M é um usurpador — afirma.

A falta de hierarquia do 15-M, que também evitava nomes e líderes, se repete neste inovador experimento político, que se registrou como partido em dezembro. A legislação espanhola não exige um número mínimo de afiliados, mas o partido deve ser registrado por um cidadão espanhol. Aí entra Greer Margaret Thurlow Sanders, a “presidente honorária aposentada”, que não participa do partido, e sobre a qual, afirma a porta-voz, não podem dar nenhuma informação, sequer sobre sua procedência, já que seu nome deixa claro que não é de origem espanhola. A ausência de nomes ou de informação não deve ser interpretada como falta de transparência, afirma a porta-voz.

— Não pedimos nem voto nem confiança. A desconfiança neste momento é positiva porque queremos despertar a consciência cidadã e romper com a mentalidade do abandono da atividade política nas mãos de pessoas determinadas. Queremos os cidadãos vigilantes, atentos, colaborando com um trabalho que deve ser de toda a sociedade.

O grupo anônimo de cientistas, professores, artistas, advogados, especialistas em novas tecnologia e em diversas áreas, avós, donas de casa, estudantes e desempregados que formam o Partido X, não pretende concorrer por enquanto, nas eleições. Não querem tentar obter uma pequena representação parlamentar e ir, pouco a pouco, conquistando mais votos. Vão esperar um “clamor grande”. Quando chegar o momento de organizar listas eleitorais, haverá rostos, nomes e sobrenomes. Por ora, o grupo de 90 integrantes é fechado. Não querem afiliados. Militantes, de fato, em um ciberpartido não têm sentido. O que precisam é de seguidores, com alto grau de compromisso e poder de mobilização nas redes sociais.

— O Partido X é uma das primeiras manifestações, no mundo, de ciberpolítica. Nossas instituições são do século XIX e têm que mudar. O Partido X é uma manifestação prática disso. Não há como saber se terão sucesso ou não. O sistema político espanhol está corrompido até a raiz, e o sentimento de impotência da cidadania é muito forte. Mas o que se pode fazer? Na política tradicional, calar-se ou manifestar-se pela rua, esperando que cheguem as próximas eleições. Mas em um novo contexto, como o da ciberpolítica, pode haver outras saídas — diz o analista político da Universidade Nacional a Distância Ramón Cotarelo.

PROGRAMA DE GOVERNO

Por enquanto, o Partido X trabalha na elaboração do seu programa intitulado “Democracia e ponto”, que ficará pronto em março. Usam o método de participação sequenciada, ou seja, um problema de cada vez, para o qual especialistas em diferentes matérias apresentarão soluções, enquanto os demais membros do partido que não conhecem profundamente o assunto, observarão, aprenderão e fiscalizarão para que o objetivo não seja desvirtuado.

— Imaginamos um governo assim: com pessoas especialistas nas diferentes matérias e com a vigilância dos cidadãos, para que não se distanciem dos objetivos por interesses pessoais — explica a anônima porta-voz.

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