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05/07/2008

Na contramão

Enrique Peñalosa, o ex-prefeito que transformou a capital da Colômbia, Bogotá, em uma referência em termos de bom urbanismo, lembrou em entrevista recente que “nos países em desenvolvimento a maioria das pessoas não tem carro. Portanto, quando você faz uma boa calçada, está construindo democracia. Calçadas são símbolos de igualdade”.

Neste momento em que a Administração de Ceilândia está prestes a cometer mais um erro, cujas vítimas serão os moradores do Setor P Sul, este tema torna-se ainda mais relevante. Estamos falando da decisão de transformar o canteiro central das avenidas P2, P3 e P4 em estacionamentos. A medida visa a agradar aos comerciantes daquele Setor, que reclamam da falta de vagas para os carros dos clientes.

É sempre bom lembrar que o projeto original do Setor P Sul (e do P Norte também) não previa a presença de estabelecimentos comerciais naquelas avenidas. O comércio deveria concentrar-se nas entrequadras. Com a falta de fiscalização, no entanto, os comércios foram-se multiplicando, até que não houve outra solução senão legalizar o que deveria ser ilegal. Quanto a isso, nada mais pode ser feito.

Mas existem outras maneiras de atender às demandas dos comerciantes, sem perder de vista os interesses dos demais moradores, a maioria deles pouco consciente dos prejuízos que certas mudanças podem trazem à sua qualidade de vida. Nas semi-urbanizadas e mal cuidadas entrequadras (as shopping quadras) do Setor P Sul há espaço de sobra para se fazerem vagas para estacionar carros. E em vez de estacionamentos, o que as avenidas em questão (e muitas outras na cidade) necessitam é de calçadas decentes.

Custaria bem menos aos cofres públicos a construção de calçadões em frente às lojas, de ambos os lados da via, ao longo de cada quadra, ampliando-se as estreitas passarelas por onde circulam hoje os pedestres. Com isto, as pessoas que têm carro (e que são uma minoria), poderiam deixá-los nas entrequadras e fazer um agradável passeio até às lojas.

Aquelas avenidas tornar-se-iam belas e movimentadas alamedas se, ao longo dos calçadões, fossem colocados bancos formando minipraças, áreas de convivência para todos os moradores. O número de pessoas circulando em fente às lojas aumentaria. E como o tempo de permanência destas pessoas no local seria maior, cresceria também o consumo, já que elas teriam mais tempo para se informar melhor sobre o que cada loja oferece. Barcelona, com as Ramblas, ou Buenos Aires, com a Calle Florida, são apenas dois exemplos de cidades onde esta solução foi adotada com sucesso, beneficiando pedestres e comerciantes.

É importante ainda chamar a atenção para o fato de que, a esta altura, seria quase um crime remover as árvores adultas do canteiro central daquelas vias.

Para que as principais avenidas do Setor P Sul ganhassem uma nova face seria necessário ainda reverter outro erro absurdo cometido no passado, que foi a permissão para que alguns moradores invadissem parte da área reservada à circulação de pedestres com infames puxadinhos que enfeiam a cidade e roubam espaço da população, obrigada a caminhar por calçadas estreitas (onde elas existem) e mal conservadas. Para ver a que ponto o descaso deixou chegar a situação, clique aqui.

A Administração de Ceilâdia nunca deu atenção às poucas calçadas da cidade. Até a tarefa de construí-las quase sempre foi deixada a cargo dos moradores. Cada um fazia a sua como queria ou podia. O resultado é uma cidade com calçadas de alturas e larguras diferentes. A falta de uniformidade, além do fato de muitas serem usadas indevidamente como estacionamento, com a complacência do poder público, faz com que o simples ato de caminhar de uma quadra a outra se transforme em verdadeiro suplício. São inúmeros os casos de pedestres que se acidentam.

Ao priorizar mais uma vez os automóveis, premiando a preguiça de motoristas e a pouca visão de alguns comerciantes, a Administração de Ceilândia dará mais um passo no aparentemente irrefreável processo de desumanização de nossa maltratada cidade.

Comentários

3 Comentários para “Na contramão”

    Marcos Machado
    07/07/2008 @ 11:28

    A construção de estacionamentos ao longo das vias P2 P3 E P4 é uma medida importante e necessária para a circulação de veículos e pedestres no nosso setor, não é verdade que que existam poucos veículos, basta uma caminhada por estas vias para sentirmos a dificuldade, os pedestres precisam andar pelo meio da rua por causa dos carros estacionadas nas calçadas.
    O que não se pode, e que é um crime, é derrubar as árvores existentes nestes canteiros. Pode-se perfeitamente construir os estacionaamentos sem que as árvores sejam retiradas, basta aproveitar o espaço, fazendo com que as árvores permaneçam nos estacionamentos, é só uma questão de inteligesncia e boa vontade.

    Aluisio Moura
    07/07/2008 @ 15:19

    Sr. Marcos Machado,

    Não costumo responder aos comentários, pois acho que este espaço pertence a quem visita o site.

    Mas neste caso peço licença para dizer que em cidades mais organizadas que a nossa as autoridades, em primeiro lugar, tratariam de multar quem estaciona nas calçadas, pois elas pertencem aos pedestres.

    No caso do P Sul o problema da falta de estacionamentos pode ser resolvido com a criação de vagas nas entrequadras, onde há espaços vazios. E de quebra livrariam a cidade de áreas usadas hoje como depósito de entulho.

    Mesmo com a criação de vagas no canteiro central, os mais comodistas continuarão a estacionar seus carros nas calçadas. E isto só deveria ser permitido para embarque e desembarque de cargas, e em determinados horários.

    batista
    08/07/2008 @ 12:44

    concordo que organização e limpeza é fundamental,agora aproveitando para citar que na qnm 2/4 da ceilandia norte a situação dessa aréa é uma calamidade publica total,as praças que foram construidas nos anos 70 em regime de mutirão pelos proprios moradores na gestão da então administradora Maria de Lurdes, estão totalmente destruidas,abandonadas e com muito lixo em uma aréa onde funciona o famoso telebar(proximo a delegacia) e o forró dos velhinhos (na via leste),tudo isso na 2/4 ceilandia norte,onde aos domingo lota,quero dizer tambem que a pista principal não tem meio fio nem calçadão obrigando a população a se arriscar a disputar com os veiculos e transitar tambem pela pista, arriscando-se a acidentes.

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