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11/08/2010

Ceilândia tem projeto sim, senhora!

Do Correio Braziliense:

As treze Ceilândias
Por Conceição Freitas

Precioso livrinho encadernado em espiral me ensina a conhecer a inesgotável Ceilândia. Mais que isso, revela as singularidades de um lugar de resistência. Registre-se que a cidade é o território fértil do hip-hop brasileiro e que nela surgiu o mais significativo movimento popular de Brasília, os Incansáveis de Ceilândia, que reunia candangos em luta por moradia.

O livrinho de Manoel Jevan foi escrito há quatro anos, mas só agora cheguei a ele. Apresenta as treze Ceilândias que existem dentro de uma só. (Agora são treze, contando o Pôr do Sol e o Sol Nascente). Cada uma delas tem personalidade própria, nasceu num determinado contexto político e histórico. A primeira surgiu para abrigar milhares de candangos sem teto. A Campanha para Erradicação das Invasões produziu a satélite de mais forte personalidade do quadradinho.

A segunda Ceilândia é o Setor O ou Setor Bolinha, como seus habitantes costumam chamá-la. O nome deve-se não apenas ao redondinho da letra, mas à Rádio Bolinha, criada por um grupo de “subversivos pioneiros do ar” nos anos 1980, ainda no regime militar, como escreveu Manoel Jevan. Os moradores do Setor Bolinha, hoje de classe média, não gostam muito da vizinhança, mas uma de suas atrações mais conhecidas é a Feira da Periquita, também chamada de Shopping do Amor.

A terceira Ceilândia nasceu em 1977 e é uma das mais conhecidas, a Guariroba, nome de uma palmeira nativa do cerrado e da fazenda onde a cidade foi assentada. Os lotes foram entregues em ordem alfabética, daí que havia uma rua só de Maria, outra só de Francisco, outra só de João.

A Ceilândia de número quatro surgiu em 1979, o P Sul, bairrista como o quê. Há motivos. No bairro foram encontrados vestígios da presença humana no Planalto Central há mais de sete mil anos. O P Sul faz por onde: é uma das comunidades mais bem organizadas de Ceilândia. O resultado é um bairro urbanizado e rico em projetos de cidadania.

O P Norte foi o último bairro de Ceilândia nascido sob a política habitacional do regime militar. Diz Jevan que é o centro culturalmente nervoso da cidade, “juntando desde os cabeludos do Ferrock até os manos do DJ Jamaica, sem esquecer os rastafáris do reggae-man Serginho Jah e as santas letras acadêmicas de dona Percília”.

A Expansão do Setor O foi o primeiro assentamento criado pelo regime democrático. Nasceu da pressão popular — o movimento dos inquilinos chegou a levar às ruas 15 mil pessoas —, mas foi engolida pelo que Jevan chama apropriadamente de “populismo eleitoreiro”. A desorganização foi tamanha que os lotes foram divididos atabalhoadamente, vão de 25 m2 a 250 m2.

Dentro de Ceilândia há também a Nova Ceilândia (o Setor N Norte), a Nova Guariroba (o N Sul), o Setor Privê, o Setor Q e as QNRs.

Aprendo, ao fim das 89 páginas, que Ceilândia não tira suas forças de um projeto urbanístico, até porque não o tem. Ela se fortalece, consolida sua história e desenvolve sua cultura com a força e a alma de sua gente.

Comento:

Conceição Freitas costuma escrever equivocadamente que acha lindo e maravilhoso Brasília ter virado isso que aí está, “uma metrópole como outra qualquer”.

Ao afirmar que “Ceilândia não tira suas forças de um projeto urbanístico, até porque não o tem”, ela pretende ser simpática, mas se equivoca mais uma vez.

O projeto urbanístico de Ceilândia foi elaborado pelo arquiteto Ney Gabriel de Souza e é primoroso pela simplicidade. Diria até que é melhor que o delírio stalinista de Lúcio Costa. Afinal, a tentativa de Costa de projetar uma cidade modernista resultou nesse autódromo onde mora gente chamado Brasília.

Em grande medida, foi a organizada ocupação do espaço prevista no projeto de Ney Gabriel de Souza que permitiu a Ceilândia deixar de ser apenas um favelão em tão somente 39 anos. Já Vicente Pires, criada sem qualquer planejamento, jamais deixará de ter cara de Rocinha. Não há “força ou alma de sua gente” que dê jeito naquilo, por mais que lá construam-se mansões e mais mansões.

Tivesse o projeto de Ceilândia sido respeitado, não teriam surgido grandes “favelínios” como o Sol Nascente e o Pôr do Sol, por exemplo. A integração dessas áreas à cidade é hoje um grande desafio a qualquer administrador público.

Não por acaso, a desvirtuação do projeto urbanístico de Ceilândia começou justamente quando o GDF caiu nas mãos de políticos. Foi a demagogia barata que permitiu que os lotes da Expansão do Setor O fossem entregues sem qualquer planejamento. O setor virou um labirinto onde até ambulâncias têm dificuldade em encontrar endereços e socorrer quem necessita.

Que em pleno século 21 ainda exista no Brasil quem veja algo de positivo no crescimento desordenado das cidades dá bem a medida do que nos separa do mundo civilizado.

PS.: Como a palavra favelínio certamente não existe no dicionário, apelei para São Google em busca de alguma ocorrência para essa boa definição das favelas condominiais que povoam os sonhos de consumo das classes emergentes candangas. Encontrei apenas quatro resultados, nenhum com esse sentido.

É falha do Google ou será que inventei uma palavra nova?

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