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26/10/2010

Saúde!

Alguns dos momentos mais difíceis de minha vida aconteceram em 1987 e tiveram como cenário o Hospital de Base de Brasília.

Naquele ano, uma de minhas irmãs sofreu um grave acidente a caminho do trabalho. Teve traumatismo crâneo-encefálico e ficou 44 dias em coma.

Logo após o acidente ela foi levada para a emergência do HDB. Ainda me lembro bem a cara de deboche do médico que prestou os primeiros-socorros quando  cheguei ao hospital, algumas horas depois, e lhe perguntei a razão de a paciente não haver sido ainda internada na UTI, já que seu quadro era muito grave. Também lembro que o malfadado tomógrafo do hospital, para variar, estava quebrado. A tomografia, necessária para um diagnóstico preciso dos danos causados pelo acidente, só poderia ser feita em uma clínica particular e custava uma fortuna. Na época meu salário mal dava para pagar a faculdade. O exame só pode ser feito graças à solidariedade de meus colegas de trabalho, que fizeram secretamente uma vaquinha e me apareceram com o dinheiro.

Depois de alguns dias de terror no HDB, conseguimos a muito custo transferir minha irmã para o Hospital das Forças Armadas, onde ela teve enfim o atendimento adequado. Recuperou-se e, apesar das sequelas, leva hoje uma vida quase normal.

Além do pouco caso e do desrespeito dos profissionais de saúde pelos pacientes e seus familiares, que se somavam injustificadamente às precárias condições do hospital, uma das lembranças mais fortes que me ficaram do HDB foi a de baratas passeando à vontade pelas camas e macas, entrando e saindo do cabelo de pacientes desacordados, sem que ninguém se incomodasse com isso.

Vinte e três anos depois, estes episódios me voltam à mente ao ouvir falar da tal KPC, uma superbactéria que anda matando a rodo nos hospitais do DF, só para provar que, ao contrário do que diz o Tiririca, pior do que está fica.

A julgar pela maioria das pesquisas (e também pela enquete do Ceilândia.com sobre quais devem ser as prioridades do próximo ocupante do Palácio do Buriti), a saúde pública parece ser o tema que mais preocupa a população neste momento.

O desanimador é que, da parte dos candidatos ao GDF, não vem nenhuma novidade. No geral, suas propostas para o setor resumem-se à construção de mais hospitais e postos de saúde e à contratação de mais funcionários. Para casos fortuitos como o acidente que vitimou minha irmã, isso de fato faz diferença. Ocorre que, na grande maioria dos casos, as pessoas procuram atendimento médico por outras razões. E é nesses casos que a simples ampliação da rede de hospitais e postos de saúde pouco resolverá.

Explico: em se tratando de saúde pública, não é importante apenas dispor de centros de atendimento. Fundamental mesmo é criar condições para que as pessoas não precisem deles. Quem der uma passadinha pelo pronto-socorro do Hospital de Ceilândia, por exemplo, vai notar ali a presença de um grande número de crianças com diarréia, doenças respiratórias, como asma e bronquite, e também alergias e doenças de pele. Muitas outras lá estarão em busca de atendimento em razão de fraturas ósseas ou ferimentos sofridos ao brincar em praças ou parquinhos mal cuidados. Isto quando eles existem. Boa parte se machuca mesmo é brincando em terrenos baldios repletos de cacos de vidro ou pregos enferrujados.

Em todos estes exemplos, o que se vê são pessoas vitimadas pelas más condições do ambiente em que vivem. Dos micróbios de ruas que nunca são lavadas, da falta de arborização, do entulho visível por toda parte e que só é recolhido a cada seis meses em uma daquelas operações-limpeza para inglês ver. E até, atraso dos atrasos, da poeira inclemente e do esgoto que corre nas ruas de bairros criados sem planejamento. A lista de descalabros não caberia aqui.

Daí porque bato tanto na tecla de que é preciso cuidar melhor de nossas cidades. Quem vive em cidades limpas, urbanizadas, arborizadas, bem iluminadas e seguras adoece menos. Se há menos pessoas doentes, consequentemente o sistema de saúde terá mais condições de atender à demanda.

Parece óbvio e de fato é. Mas no Brasil os governantes não apenas cuidam mal dos efeitos, como também negligenciam as causas dos problemas.

E isto não ocorre apenas em relação à saúde. Se há problema de mobilidade, alargam-se pistas e constroem-se viadutos e estacionamentos, em vez de investir na melhoria do transporte público e em meios alternativos de locomoção. Na área de segurança, até hoje há quem acredite que a polícia existe para prender criminosos e não para evitar que eles tenham oportunidades para cometer crimes. Consequentemente, temos os únicos comandantes de polícia do mundo que acham desnecessária a presença de policiais nas ruas. E não sentem nenhum constrangimento em declarar isso publicamente.

Os resultados, tanto nos transportes quanto na segurança e na saúde, aí estão, à vista de todos.

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