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09/11/2010

Tão perto, tão longe

Outro dia fiz aqui algumas considerações sobre as propostas do governador eleito do DF, Agnelo Queiroz, para Taguatinga (especialmente as referentes à Avenida Comercial, cujos estacionamentos ele teria a intenção de melhorar).

Volto ao tema agora em razão de haver visitado recentemente a cidade de Resistencia, capital da Província do Chaco, uma das mais pobres da Argentina. A província é uma espécie de Piauí local. Já Resistencia, com cerca de 360 mil habitantes é, por extensão, uma espécie de Teresina (até a temperatura na cidade, nesta época do ano, é muito parecida. E olhe que ainda estamos na primavera).

Mas a capital, pelo porte e por determinadas características, assemelha-se também a Taguatinga.

Como o universo inteiro sabe e não cansamos de repetir, nós, brasileiros, somos o povo mais “ixperto” do mundo. Inclusive adoramos tirar onda com a cara de nossos atrasados vizinhos, especialmente os argentinos, esse povinho metido que nos olha de cima para baixo porque, óbvio, não sabe o quanto somos mais “ixpertos” e avançados que eles.

Cheguei a Resistencia sem grandes expectativas. Afinal, vivi quase toda a vida muito perto de uma cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade (seja lá o que isso signifique) e que ainda por cima é a capital de um país de gente “ixperta” como só. No máximo eu esperava encontrar nos confins do Chaco aqueles sinais típicos de atraso do qual nós, “ixpertos” e felizes brasileiros, já nos livramos há muito tempo.

Não deu outra: logo ao sair do hotel pude constatar que existe gente tão tola e atrasada a ponto de aceitar que fechem ao tráfego de veículos a principal avenida de uma cidade, transformando-a em uma rua para pedestres (ou peatonal, como eles dizem aqui). Pois foi exatamente isto que a prefeitura de Resistencia fez com a avenida comercial da cidade.

E para provar que não estou inventando nada, abaixo estão algumas fotos desse absurdo que já dura quase cinco anos e que, até agora, a prefeitura de Resistencia insiste em manter, contrariando toda a lógica sobre a qual está assentado o urbanismo mais moderno do mundo, do qual os brasilienses em geral e os taguatinguenses em particular desfrutam há cinquenta anos.

Veja com seus próprios olhos:

Assim era a avenida comercial de Resistencia. Como se vê, já era meio do contra, com essa calçada larga e bem construída, em nada parecida com aquela maravilha estreita, desnivelada e esburacada que enfeita a Avenida Comercial de Taguá. Mas até aí tudo bem: pelo menos a avenida era aberta ao tráfego de veículos, como deve ser qualquer rua que se preze.

Pois eis que um belo dia o prefeito endoidou e resolveu mudar tudo: mandou fechar aos carros vários trechos da avenida. Eles passaram a circular e a estacionar nas ruas internas das quadras adjacentes. Já os ônibus passaram a usar outras vias próximas. Sobre a antiga pista da avenida foi construído um calçadão, cujo piso foi revestido com material de primeiríssima qualidade.

Não contente com tamanha desfaçatez, o energúmeno ainda teve o desplante de mandar a Novacap local (que, ao contrário da nossa, funciona) elaborar um projeto paisagístico onde se destacam árvores de pequeno porte e arbustos nativos da região.

Mandou também espalhar belas esculturas ao longo de todo o calçadão. Mas pensa que foi só isso? Pois o maluco fez mais: gastou uma nota implantando uma iluminação primorosa. E também cometeu a heresia de fazer da avenida um lugar seguro a qualquer hora do dia ou da noite, com policiais patrulhando toda sua extensão a pé, em bicicletas e quadriciclos.

Eis o resultado: o calçadão virou um imenso shopping center a céu aberto e o principal ponto turístico da cidade. Os comerciantes da região, coitados, perderam o sossego, acossados por milhares de cidadãos estressados e inconformados por não ter onde estacionar. Uma gente esquisita que fica caminhando pra lá e pra cá, olhando vitrines, comparando preços e comprando muito.

Algumas lojas passaram a vender tanto que viram-se obrigadas a manter as portas abertas até às 11h da noite. Já o movimento de bares e restaurantes entra pela madrugada.

Quem não está a fim de fazer compras, mas tem tempo de sobra, pode curtir a falta do que fazer em uma das inúmeras minipraças da avenida. Ficar por lá vendo a vida passar, tomando um chope, jogando conversa fora com os amigos… essas coisas que gente à toa gosta tanto de fazer em lugares saudáveis e arejados como os shopping centers do DF, por exemplo.

Imagine só o prejuízo que essas mudanças todas não devem ter causado à economia de Resistencia. Onde já se viu uma avenida comercial onde os carros não podem trafegar nem estacionar? E ainda por cima bonita, limpa, segura, bem iluminada, onde ninguém é barrado por ter cara de pobre, ser neguinho ou andar por aí de bermuda e sandálias havaianas… Um total absurdo que deve ter deixado em estado de choque os donos dos poucos caixões-centers da cidade.

A prefeitura de Resistencia resiste e já tem planos para estender seu fracassado calçadão por mais algumas quadras. Parece desconhecer a lógica implacável que norteia o desenvolvimento de cidades evoluídas como Brasília ou Taguatinga, segundo a qual centros urbanos devem ser feitos para os carros.

Não sabe aquele prefeito tresloucado que uma rua onde só se pode circular a pé fatalmente terminará abandonada, com as lojas fechadas, dominada por mendigos e meninos de rua viciados em crack (coisa que jamais aconteceria com uma avenida como a Comercial de Taguatinga). Pois se até o novo governador do DF sabe que o que qualquer cidade precisa mesmo é de mais e melhores estacionamentos…

Realmente esses argentinos bobos não perdem por esperar.

PS.: Ironia à parte, das cidades argentinas que conheci até agora nenhuma me decepcionou. Aliás, quanto mais conheço a Argentina, mais tenho raiva dos descalabros que vejo no DF. E quando alguém pergunta se é verdade que os argentinos, apesar de pobres, são metidos a besta, respondo sem pestanejar: Alguns até são. Mas eles podem.

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