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24/11/2013

Mais iguais que os outros

Do jornal O Globo:

Políticos têm tratamento especial na prisão

Réus do mensalão condenados ao regime semiaberto ‘estão mexendo com o sistema todo’, diz gestor penitenciário no DF

Na última quinta-feira, José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, saíram da cela para se encontrar com parlamentares no prédio da administração do presídio, que fica fora da área onde estão os blocos e alas do Centro de Internamento e Reeducação (CIR). José Genoino, ex-presidente do PT, já tinha sido levado para o hospital. Apenas Romeu Queiroz, ex-deputado federal por Minas Gerais, e Jacinto Lamas, ex-tesoureiro do PL (hoje PR), estavam na cela. Resignados, não demonstravam indignação com a pena de prisão nem com as condições de reclusão. Pelo contrário: os dois elogiaram o tratamento recebido na cadeia. Reclamaram apenas que a comida poderia ser “um pouco melhor”.
— Aqui na cela somos três advogados e temos ciência do que estamos passando — disse um deles quando abordado por uma autoridade.

Protesto de parentes de presos comuns

No mesmo dia, a mulher e uma sobrinha de Cleber Bonfim, um bombeiro hidráulico de 28 anos, chegavam à Defensoria Pública no Distrito Federal sem saber o paradeiro do jovem. Preso em casa, de madrugada, por uma equipe de policiais sem farda e sem carro caracterizado, Cleber começou um périplo por cadeias do DF. Passou pela carceragem de um distrito policial na periferia e por um centro de triagem numa área nobre, até finalmente ser levado para a Papuda. O réu está no Centro de Detenção Provisória (CDP). Na próxima terça-feira, o “bonde” passará e levará Cleber para as celas comuns do CIR ou para o bloco G da Penitenciária do Distrito Federal (PDF 2). Os recém-chegados no bloco G, diante da lotação de 20 pessoas numa cela onde só cabem oito, dormem na área da privada cavada no chão.

— Os mensaleiros foram avisados de que seriam presos. O Cleber vai ter cela especial também? — questiona a mulher do bombeiro hidráulico, que pede para não ser identificada por medo de perder o emprego.

Ela levou aos defensores públicos a carteira de trabalho do marido, assinada desde junho. Em um mês, se Cleber não perder o emprego e o salário de R$ 1,1 mil, a Justiça poderá permitir o trabalho externo.

O núcleo político do mensalão que começou a cumprir a pena e o bombeiro hidráulico estão no mesmo regime de prisão, o semiaberto. As penas dos mensaleiros, condenados por crimes como corrupção e lavagem de dinheiro, se aproximam de oito anos. Cleber foi preso em razão de uma condenação por portar arma de fogo. A pena é de dois anos e quatro meses. Por ser reincidente – a família diz que o processo anterior é por assalto à mão armada –, o juiz determinou o semiaberto como regime. A realidade mostra que autoridades – ou ex-autoridades políticas – carregam um tratamento especial para dentro dos presídios sem precedentes junto à massa carcerária.

O CIR é um presídio superlotado, com 1,5 mil detentos. O bloco G da PDF 2, outro destino para presos do semiaberto sem trabalho externo, tem 916 internos, mais do que o dobro da capacidade, em condições piores que as do regime fechado, com banho de sol dia sim, dia não. Na cela S-13, onde estão Dirceu, Delúbio e outros dois réus do mensalão, sobram vagas. Cinco beliches, com dez camas, são utilizados pelos quatro réus. O mais provável é que os próximos presos por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) e em cumprimento de semiaberto sejam enviados à S-13. O presídio tem outra cela semelhante, a S-14, que também poderá ser usada com essa finalidade.

Nenhum outro grupo de detentos está tão seguro quanto o do mensalão. A cela de 20m² está bem próxima do portão gradeado que dá acesso aos blocos e alas. Ao lado estão uma sala de servidores do presídio e a dos agentes penitenciários. Bem próxima está a ala de ensino. Apenas um corredor separa a cela da ala especial destinada a ex-policiais militares e a presos provisórios com curso superior. A administração do sistema penitenciário considera que a cela integra a ala especial, onde 23 quartos abrigam os detentos. Nesta ala, são liberados TVs, eletrodomésticos, uma cozinha e banheiro com pia e vaso sanitário.

— A cela deles está na entrada da ala especial e é reservada para pessoas tidas como qualificadas. Lá ficavam presos que trabalham na cantina ou os chamados “verdinhos”, que fazem reparos no gramado. A cela da ala especial é bem melhor — afirma o coordenador-geral da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe) do DF, João Feitosa.

Mais tempo de banho de sol

A direção do presídio autorizou a instalação de uma TV na cela dos réus do mensalão, aparelho que já existe em outras alas. Eletrodomésticos e chuveiro elétrico estão em análise. O banheiro não tem vaso sanitário. As roupas comuns são colocadas sobre a cama, uma vez que sobram beliches na cela. O vestuário exigido é camiseta e bermuda branca e chinelo de dedo. Os presos têm direito ao maior tempo de banho de sol do CIR, entre 9 e 16 horas, e ficam sozinhos no pátio. O prédio da administração, fora dos blocos, passou a ser um local frequentado pelos réus para receberem visita, principalmente parlamentares.

Já as celas comuns do CIR estão superlotadas. Os tamanhos variam de seis a 14 m² e a lotação, de duas a 20 pessoas. O prédio é o mais antigo da Papuda e está cheio de infiltrações.

A situação do bloco G da PDF 2 é a pior dentre as unidades destinadas ao semiaberto. Para a Defensoria Pública no DF, o alojamento de quase mil detentos do semiaberto num regime fechado constitui-se um flagrante desrespeito à lei. Diante disso, em 2012, os defensores apresentaram 500 habeas corpus na Justiça para tentar retirar do bloco metade dos detentos. A tentativa foi em vão.

— É comum a queixa dos presos por estarem na PDF 2. Não há banho de sol todo dia e é pior do que estar no regime fechado — diz o coordenador do Núcleo de Execução Penal da Defensoria Pública no DF, Leonardo Moreira.

Segundo o coordenador-geral da Sesipe, a escolha do presídio para onde vão os detentos do semiaberto “depende do dia”. Sobre os réus do mensalão, João Feitosa diz que “eles estão mexendo com o sistema todo”:

— Até organizar tudo leva tempo. Os outros presos estão reagindo bem. Não há qualquer chance de um motim ou algo do tipo.

O bloco G mistura ainda presos que cometeram diferentes crimes; reincidentes e primários; condenados perigosos e sentenciados sem ameaça à segurança dos internos. A terceira unidade destinada ao semiaberto é o Centro de Progressão Penitenciária (CPP), fora da Papuda, para onde vão os detentos com trabalho externo. Se os réus do mensalão obtiverem autorização para trabalhar fora durante o dia, terão de ir ao CPP, uma vez que não há estrutura para revista dos presos na Papuda. No CPP, são comuns os acertos de contas — inclusive com execuções — do lado de fora e a circulação do crack entre os galpões.

O esquema especial de visitas a que os réus do mensalão tiveram direito, com uma romaria de parlamentares na Papuda, é uma exclusividade desses presos. Os comuns precisam indicar no processo de execução dez pessoas que podem visitá-los, dos quais quatro podem aparecer em cada visita. A entrada no complexo só ocorre uma vez por semana, na quarta ou na quinta-feira, e por isso há filas de parentes desde o dia anterior. Ônibus só circulam até a Papuda nesses dois dias. Muitas vezes, a Defensoria Pública precisa intervir para assegurar determinadas visitas nos presídios. São 80 pedidos por mês.

 

22/11/2013

E os outros Genoinos, dona Dilma?

Do blog de Josias de Souza:

Prisões do Brasil abrigam legiões de Genoinos

De todos os imutáveis flagelos brasileiros o pior talvez seja o flagelo do sistema penitenciário —cerca de 540 mil presos para algo como 300 mil vagas. É o inqualificável facílimo de qualificar. Qualquer zoológico oferece estadia mais decente. Vistos como sub-bichos, os presos são submetidos a horrores como a superlotação, a insalubridade e a doença.

Nos últimos dias, o noticiário sobre a situação carcerária migrou dos fundões da editoria de polícia para as manchetes de primeira página. Deve-se a migração à mudança de status dos condenados do mensalão. Desceram do Brasil da impunidade para a subcivilização que definha dentro das cadeias, onde subpessoas vivem e, sobretudo, morrem esquecidas por uma sociedade selvagem.

O contato dos neopresidiários com o insuportável provocou um estrépito fulminante. Voaram algemados no camburão aéreo da Polícia Federal. Desrespeito! Foram revistados nus. Acinte! O banho é frio. Uhuuuuuu! Come-se a gororoba na quentinha, com garfo de plástico. Irrrrrrrrc! O semiaberto virou regime fechado. Inaceitável! A vida do José Genoino corre risco. Barbárie!

De repente, o país superlativo —Brasilzão do mensalão— se deu conta de que o submundo também tem uma quedinha pela desinência ‘ão’. Cruza da boa intenção com a inação, a prisão virou problemão sem solução. Antes, o inferno só era infernal para bandido do povão. Gente sem noção, vidrada em rebelião, sem vocação para reabilitação. Nesse caldeirão não cabe a turma dos embargos de declaração.

O debate sobre o martírio dos mensaleiros é legítimo e necessário. Polícia boa é polícia sob controle. Não é papel do Estado humilhar presos. A imposição de penas mais gravosas do que as previstas na sentença não pode ser tolerada. O descaso com a doença alheia é um tipo de crueldade que, além de ilegal, agride a boa índole do brasileiro.

Nesta quarta-feira, até Dilma Rousseff revelou-se inquieta com o quadro de Genoino. Falando a emissoras de rádio de Campinas (SP), a presidente disse ter uma “preocupação humanitária” com o companheiro. “Sei das condições de saúde dele. Ele teve uma doença extremamente grave do coração. Sei que ele toma anticoagulante”, disse.

Deve-se louvar o fato de a presidente ter botado a boca no trombone por Genoino. Pena que lhe falte sopro para fazer barulho pelo resto dos presos doentes e pelo sistema carcerário na UTI. É ensurdecedor, por exemplo, o silêncio da presidente diante da precariedade do Presídio Central de Porto Alegre, cidade onde ela se fez politicamente.

Há dez meses, em janeiro de 2013, entidades reunidas no Fórum da Questão Penitenciária denunciaram o cadeião da capital gaúcha à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Construído em 1959, o presídio jamais foi reformado (veja fotos). Tem capacidade para 2 mil presos. Há cerca de 4,5 mil pessoas empilhadas em seus pavilhões. Falta saneamento básico. Sobram gambiarras e fiações expostas ao risco de curto-circuito. Ratos e baratas correm por entre os presos. Doentes morrem sem assistência médica —a maioria fenece de Aids e tuberculose.

Em fevereiro, a OEA cobrou explicações ao governo brasileiro. Pediu informações sobre providências que as autoridades adotariam para proteger a integridade física e a vida dos presos da cadeia de Porto Alegre. Indagou sobre a falta de assistência médica no interior da penitenciária. Questionou sobre a encrenca da superlotação e os riscos de incêndio. Fixou um prazo de 20 dias para o envio das respostas.

Em março, Brasília enviou à OEA um documento de 52 páginas. Não traz a assinatura do responsável. Tampouco informa o órgão que produziu o texto. Pintou-se um cenário de rendenção. A cadeia gaúcha já disporia de unidade de saúde com médicos, psiquiatras, psicólogos, infectologista, traumatologista, dentistas, enfermeiros e assistentes sociais. Já estariam à disposição dos presos testes de HIV e sífilis, além de exames de raio-X.

Pelo texto oficial, a coleta do lixo teria sido aperfeiçoada e a cozinha da penitenciária passara por reformas. Criara-se um sistema de combate a incêndios dotado de 12 bombeiros. Instalaram-se no presídio 19 extintores. A OEA enviou a resposta do governo ao denunciante, o Fórum da Questão Penitenciária. Pediu uma manifestação sobre o conteúdo do papelório.

Na sua resposta, o fórum informou à OEA que nada mudara na masmorra de Porto Alegre. A assistência médica aos presos continuava deficitária. Seriam necessárias oito equipes médicas para atender à população carcerária. Só havia uma equipe completa. O aparelho de raio-X estava quebrado, sem previsão de data para o reparo.

Os dejetos das redes de esgoto continuavam correndo a céu aberto, conforme parecer técnico do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia do Rio Grande do Sul, anexado à réplica. O parecer anota que a “estrutura do Presídio Central é irrecuperável para o fim a que se destina, de ser um presídio”. Há críticas também à higiene e ao acondicionamento da alimentação preparada para os detentos.

Não se ouviu nenhuma palavra de Dilma que expressasse “preocupação humanitária” com os detentos de Porto Alegre. Segundo dados da Vara de Execuções Criminais da capital gaúcha, das 278 mortes ocorridas nos 25 presídios da Região Metropolitana de Porto Alegre nos últimos quatro anos, quase 90% foram causadas por doenças.

“A maioria dos presos – portadores de Aids e tuberculose – morre por insuficiência respiratória, sem receber assistência à saúde; é preciso lembrar que eles estão sob responsabilidade do Estado. A saúde é um dos deveres do Estado”, afirma o juiz auxiliar da presidência do Conselho Nacional de Justiça, Luciano Losekann, coordenador dos Mutirões Carcerários realizados pelo órgão.

O problema das cadeias brasileiras decorre de um descaso que é velho como a primeira missa. Mas o vexame aumenta quando se considera que, no caso do Rio Grande do Sul, a presidente Dilma, o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e o governador gaúcho Tarso Genro são velhos defensores dos direitos humanos, pertencem à mesma agremiação partidária, o PT de Genoino, e têm nas mãos a faca e o queijo.

Enquanto Dilma manifestava sua preocupação com Genoino na entrevista de Campinas, 26 deputados federais do PT foram em caravana ao presídio da Papuda. Para irritação dos familiares dos presos pobres, entraram sem pegar o final da fila. Avistaram-se com Genoino, José Dirceu e Delúbio Soares. Saíram alardeando as queixas dos condenados do núcleo político do mensalão. Dirceu, por exemplo, não se conforma de estar trancafiado há cinco dias. Condenado ao semiaberto, não vê a hora de ganhar o asfalto durante o dia.

Correta, a queixa de Dirceu logo será atendendida. A mesma sorte não socorre os milhares de presos provisórios do país. Numa conta do ministro Gilmar Mendes, ex-presidente do STF e do CNJ, algo como 40% dos 540 mil presos estão na cadeia sem jamais ter sido condenados. São, por assim dizer, presos eternamente provisórios. Em muitos casos, a cana já dura mais de dez anos. Em alguns Estados, o desastre é maior. No Piauí, por exemplo, 70% da população carcerária aguarda julgamento. São os sem-embargo. Pior: é gente que não tem dinheiro para o advogado. Gilmar Mendes falou sobre a encrenca numa entrevista concedida ao blog em maio.

A bancada de deputados do PT prestaria um enorme serviço ao país se aproveitasse o súbito interesse carcerário para organizar caravanas a outras unidades do sistema penitenciário nacional. Sugere-se que comecem pelo HCT, Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Salvador –um pedaço da rede hoje submetido aos cuidados do governo petista de Jaques Wagner. Equipe do CNJ inspecionou o local no ano passado.

Encontrou um telhado em petição de miséria. Chovendo, alaga-se o piso do primeiro andar. A água escorre pelos bocais das lâmpadas e vaza no andar de baixo, nos quartos dos presos com problemas psiquiátricos. A umidade deixa malcheirosos os ambientes. Para complicar, o contrato com a empresa que fazia a limpeza do local havia expirado quando os inspetores do CNJ varejaram as instalações.

Está disponível na web um filme que mostra o inferno do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Salvador. Chama-se ‘Casa dos Mortos’, título do poema de um dos presos. Um dos mortos-vivos exibidos na peça chama-se Almerindo Nogueira de Jesus. Internado aos 23 anos, encontra-se no local há 28 anos. Foi diagnosticado esquizofrênico.

Acusado de ameaçar a madrasta, Carlos Marcos Ferreira de Araújo foi internado aos 18 anos. Vegeta no HCT há 31 anos. Seu diagnóstico é de deficiência mental e eplepsia. Há no Brasil 23 hospitais de custódia como o de Salvador. Escondem dos olhares da sociedade 4.500 homens e mulheres.

Ainda que seja breve, a presença dos mensaleiros na cadeia terá efeitos notáveis se dela resultar uma evolução do sistema carcerário nacional para a Era medieval. A discussão sobre a necessidade de “humanizar” as prisões é coisa do século 18. A conveniência da “ressocialização” do criminoso tonificou-se no final do século 19.

Atrasado em mais de um século, o Brasil tem agora uma boa oportunidade para encarar um problema que nunca quis ver. Até aqui, reservado à clientela dos três pês –pobre, preto e puta—, o sistema prisional brasileiro estava apinhado de bandidos sem jeito, do tipo que só se resolve matando. Solução definitiva? Só quando sobrasse algum dinheiro. Mantida a disposição do Judiciário de enviar para o xadrez os bandidos de grife, pode-se sonhar com uma redução na taxa de roubo. Quem sabe começa a sobrar algum caraminguá.

 

12/11/2013

Agnelo quer voar. Você vai pagar a conta

Do Portal UOL:

DF vai contratar jatinho para viagens de Agnelo por R$ 1,3 milhão

O governo do Distrito Federal abriu licitação para contratar um jatinho para os deslocamentos do governador Agnelo Queiroz (PT), a um custo previsto de R$ 1,3 milhão por um ano.

O edital de licitação justifica que o serviço de táxi aéreo é necessário por causa da “execução de uma agenda intensa e diversificada de compromissos”.

“Sendo assim, o serviço de táxi aéreo aparece como o mais apropriado para atender essa necessidade, tendo em vista que nem todos os municípios brasileiros são atendidos pela aviação comercial regular”, diz o edital.

Atualmente, Agnelo viaja em voos comerciais. Desde o início do mandato, ele já fez 47 viagens, segundo a assessoria de comunicação.

O contrato incluirá também serviço de bordo, com oferta de água, refrigerante, suco, sanduíche, almoço, jantar, sobremesa e prato de entrada.

Há as exigências de que a aeronave tenha no máximo 35 anos de fabricação, capacidade para no mínimo seis passageiros, ar-condicionado e pintura interior em bom estado de conservação.

O jatinho deve permitir viagens de Brasília, sem escalas, para todas as capitais, e também viagens internacionais “com o mínimo de escalas possíveis”.

O custo dos serviços foi estimado pelo governo com base na média das viagens nacionais e internacionais feitas por Agnelo. Foi fixado um preço de R$ 22,85 por quilômetro, o que totaliza uma estimativa de R$ 1,3 milhão para 60.000 km percorridos.

De acordo com a assessoria de comunicação do governo do DF, o jatinho também será usado pela Secretaria de Saúde no transporte de órgãos captados para transplante — essa informação, porém, não consta no edital de licitação.

 

11/11/2013

O Sarcófago-Center da discórdia

jkEm junho de 2011 escrevi AQUI sobre o sarcófago-center que a incorporadora PauloOctavio pretendia construir no Setor M Norte de Taguatinga.

O trecho de reportagem a seguir, publicado pelo Correio Braziliense, mostra que só agora, quando o monstrengo está em meio a mais um daqueles escândalos tão tipicamente brasilienses, é que as instâncias (ir)responsáveis tratam de tentar cumprir com suas obrigações.

Como sempre, é tarde demais.

E o pior mesmo só será percebido mais à frente, quando, a exemplo do que aconteceu com a Avenida W3, as lojas da avenida Hélio Prates começarem a fechar as portas por falta de clientes.

Tudo muito previsível.

Shopping polêmico

O esquema de concessão de alvarás desbaratado na operação Átrio, do Ministério Público do DF (MPDFT) e Territórios com a Polícia Civil do DF, revelou, além do suposto esquema de corrupção, uma série de irregularidades urbanísticas na construção de empreendimentos, entre eles, o JK Shopping, na QNM 34 de Taguatinga. O empreendimento pertence à PaulOOctavio Investimentos Imobiliários Ltda. e foi autorizado, em 2010, pelo então administrador regional Rubens Tavares e Sousa, antes mesmo das análises de impacto de vizinhança e de trânsito, além da consulta aos órgãos de fiscalização como Corpo de Bombeiros, Caesb e Companhia Energética de Brasília (CEB).

O centro ocupa 121.068,44 m² em um espaço onde deveria abrigar uma escola pública, antes da revisão do Plano de Ordenamento Territorial. A previsão é de que o empreendimento receba um milhão de pessoas por mês, conforme publicidade em panfletos. A emissão de licenciamento sem o Estudo de Impacto de Vizinhança e do Relatório de Impacto de Trânsito é investigada pela Promotoria de Defesa da Ordem Urbanística (Prourb) desde março.

Segundo a Prourb, não estão previstos na área passarelas, estacionamentos, faixas de pedestres, rede de galerias de águas pluviais e planejamento para garantir a fluidez no trânsito. O prédio também não tem Habite-se. “O shopping deve receber um milhão de pessoas ao mês em uma localidade saturada em termos de mobilidade. É grave. A população daquela região será muito penalizada se esse empreendimento entrar em funcionamento”, avalia a promotora Maria Elda Fernandes Melo.

Ela pretende intimar arquitetos e engenheiros responsáveis pela aprovação do projeto para esclarecimentos e deve ainda buscar informações sobre as apuração feitas até agora pela Divisão de Repressão ao Crime Organizado (Deco) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPDFT.

 

05/11/2013

Ônibus para o futuro

Da revista Época:

Hartmut Schick: “O ônibus pode ser melhor do que o carro jamais foi”

O presidente da maior fábrica de ônibus do mundo afirma que as faixas de tráfego exclusivo e os aplicativos de celular darão rapidez e comodidade aos passageiros

Os dois filhos já adultos do executivo alemão Hartmut Schick, que vive em Stuttgart, não têm carro particular. Em parte, por influência do pai, presidente mundial da divisão de ônibus da Mercedes-Benz e dirigente da Associação Internacional do Transporte Público. Em parte, pela ampliação e pelo enriquecimento da população nas cidades, que sobrecarregou o trânsito. Schick diz que o mesmo ocorrerá no Brasil, na próxima década, quando o uso de transporte público dobrará. O sacrifício de deixar o carro em casa, diz, será compensado pela praticidade dos ônibus que avisam ao passageiro quando estarão no ponto, para os quais o sinal estará quase sempre verde.

ÉPOCA – Qual é o futuro do transporte público?

Hartmut Schick – Até 2025, o transporte público dobrará sua participação na movimentação urbana. O Brasil crescerá nessa proporção, perto de 100%. Países da África e a Índia puxarão a média para cima. A Europa não mudará muito, é uma região consolidada.

ÉPOCA – Como o transporte urbano mudará em dez anos?

Schick – Os corredores de ônibus expresso, tipo BRT (bus rapid transit, em inglês), serão muito importantes. Já existem em cidades da Turquia, Colômbia e África do Sul. Começarão na Índia. No Brasil, o BRT será implantado em nove das 12 cidades sedes da Copa do Mundo de 2014.

ÉPOCA – O que explica a proliferação do BRT?

Schick – O preço. Um estudo feito em 2007 para Bangcoc, capital da Tailândia, mostra que 426 quilômetros de BRT custam tanto quanto 40 quilômetros de trens de superfície, 14 quilômetros de trens elevados, tipo monotrilho, ou 7 quilômetros de metrô. No Brasil, o quilômetro do metrô custa R$ 201 milhões, 18 vezes o custo do BRT. A implantação do BRT é muito rápida. No Rio de Janeiro, a malha passará dos atuais 30 quilômetros para 150 até a Olimpíada de 2016.

ÉPOCA – A visita do papa Francisco ao Rio de Janeiro não gerou boas expectativas para os grandes eventos esportivos no Brasil. O metrô parou, as ruas ficaram congestionadas e os passageiros levaram mais de uma hora para embarcar nos ônibus.

Schick – Os problemas na visita do papa ao Rio foram normais. Nem Berlim, capital da Alemanha, estaria pronta para receber 3,5 milhões de visitantes. O Brasil não precisa dimensionar seu sistema de transportes para uma visita do papa. Ele não voltará ao país tão cedo. O sistema de transportes será suficiente para a Copa e para os Jogos Olímpicos. Tenho certeza de que funcionará bem.

ÉPOCA – O transporte público brasileiro é bom, comparado ao resto do mundo?

Schick – Os ônibus nas capitais brasileiras andam à velocidade média de 15 quilômetros por hora, 2 quilômetros por hora mais lentos que os ônibus das capitais europeias. A situação está num bom nível.

ÉPOCA – O público brasileiro não parece nada satisfeito…

Schick – As pessoas gostarão. Precisa de tempo. Tempo para entender que, com o aumento da riqueza e de pessoas trabalhando nas cidades, certas coisas não são mais possíveis. Em capitais europeias como Paris, não é mais possível dirigir. Mesmo os chefes de empresa vão para o trabalho em transporte público. O sistema parisiense é bem ruim, mas a população se acostumou. Meus filhos não sentem falta de carro particular. Eles usam transporte público e carros compartilhados.

ÉPOCA – Como tornar o transporte público agradável aos donos de carro particular?

Schick – A tecnologia dá ao transporte público algumas qualidades típicas do carro. Em alguns aspectos, o ônibus poderá ser melhor do que o carro jamais foi.

ÉPOCA – Como?

Schick – O carro particular tem defeitos inevitáveis. Como ele é seu, não é possível abandoná-lo num engarrafamento. O transporte público, sim. É possível descer de um táxi e seguir a pé ou trocar por um ônibus ou metrô.

ÉPOCA – Quando chego a um destino, num carro particular, sou obrigado a procurar estacionamento. Mas sei que o carro estará disponível quando eu quiser ir embora.

Schick – O garçom do restaurante, ao trazer a conta, pergunta se quero um táxi ou se meu carro está com o manobrista. Não precisar esperar o meio de transporte é um luxo caro. Não será mais. Poderei sair do restaurante ciente de que, em dois minutos, meu ônibus passará no ponto. Meu smartphone dará essa informação. Um aplicativo poderá monitorar milhares de táxis, ônibus e trens. Poderá sugerir a estratégia de locomoção mais eficaz a cada momento, considerando as condições de trânsito e a oferta de cada meio de transporte. O monitoramento também permite aos controladores de tráfego abrir e fechar sinais para dar prioridade ao transporte coletivo.

ÉPOCA – Quão distantes estamos de monitorar todos os meios de transporte?

Schick – Em cinco anos, isso será realidade. Stuttgart, na Alemanha, desenvolve um projeto assim. As empresas de ônibus das maiores capitais brasileiras já monitoram seus carros em tempo real. São mais adiantadas nisso que as capitais europeias. Ainda são tímidas, porém, ao compartilhar essa informação com o público.

ÉPOCA – Onde está a vanguarda do transporte público?

Schick – É difícil comparar o transporte público de uma cidade para outra. Ele é uma solução específica para problemas específicos. Há cidades mais avançadas em objetivos diferentes. Stuttgart avança no monitoramento da frota. Hamburgo, também na Alemanha, quer ter a frota mais limpa do mundo. Eles experimentam ônibus movidos a célula de combustível, que emitem apenas vapor d’água pelo escapamento. Os hamburgueses querem estender a tecnologia à frota inteira, até 2020. É um plano ambicioso e caro, por enquanto. Mas é a meta deles. Hong Kong tem o Octopus, um cartão para fazer compras no mercado e pagar o transporte público.

ÉPOCA – Qual é a vantagem de pagar o transporte público com cartão de débito?

Schick – Nos Estados Unidos ou na Europa, preciso comprar tíquete para o transporte público. Cada cidade adota um sistema diferente. Frequentemente, meios de transporte da mesma cidade adotam sistemas diferentes. Nem sou tão velho, tenho 51 anos, mas, para mim, é tão difícil… Muitas pessoas não usam o transporte público por ser complicado. O Octopus torna tudo muito mais fácil. Pagar com cartão de débito, ou pelo celular, tornará os ônibus mais acessíveis.

ÉPOCA – Pela primeira vez no Brasil há tantos passageiros em ônibus quanto em aviões, em viagens interestaduais. Por que o transporte rodoviário perdeu espaço?

Schick – Sempre haverá competição entre ônibus e aviões, com vantagens para um lado ou para o outro, dependendo da distância ou do preço do combustível. Do ponto de vista da ecologia, o avanço do transporte aéreo é ruim. O avião emite o sêxtuplo de gás carbônico por passageiro. Não conheço tão bem a estrutura de estradas e aeroportos do Brasil, mas imagino que o equilíbrio entre ônibus e avião seja temporário. O transporte rodoviário tende a prevalecer. Ele pode chegar mais perto do destino, está menos sujeito ao clima e requer menos tempo de embarque.

ÉPOCA – Por que, no Brasil, os carros de passeio têm itens de segurança mais sofisticados que os ônibus? O custo da tecnologia nos ônibus pesa menos, pois pode ser diluído na passagem de milhares de passageiros.

Schick – Na Europa, os ônibus alertam ao motorista se ele mudar de faixa na estrada, sem sinalizar, ou se chegar perto demais do carro da frente. Alguns freiam, por conta própria, diante de pedestres. Podemos oferecer essas e outras tecnologias no Brasil, se houver interesse. Ele dificilmente vem do empresário. O transporte de carga ou de passageiros é, por natureza, um negócio competitivo. Há pouca margem para cobrar mais caro por um produto melhor. Na Europa, os ônibus mais modernos reduziram gastos com seguro, mas é um ganho incerto.

ÉPOCA – Como levar a tecnologia disponível no mundo para os ônibus brasileiros?

Schick – As inovações chegam às ruas por incentivo ou exigência dos governos. Os novos ônibus brasileiros são obrigados a ter freios ABS e atendem aos limites de emissão de gases poluentes adotados na Europa há cinco anos. Para essas inovações chegarem às ruas, o país precisa incentivar a renovação da frota. Os ônibus brasileiros têm, em média, 15 anos. Um ônibus dessa idade emite 12 vezes mais fumaça com partículas, como fuligem, do que um ônibus novo.